terça-feira, 29 de janeiro de 2013

REFLEXÕES CONTEMPORÂNEAS

Sociedade não é um amontoado de gente onde cada um acha que pode tudo, onde não há distribuição de papéis segundo os valores da própria sociedade. Temos a sociedade que construímos e pela qual lutamos e instituições que elegemos responsáveis pela preservação e promoção dos valores nos quais acreditamos. Sociedade só existe se for organizada, com papéis e responsabilidades; não apenas direitos. Mesmo as sociedades primitivas têm líderes, têm curandeiros sacerdotes e magos, pessoas respeitadas e preservadas pelos demais. A sociedade democrática valoriza o acesso meritório a funções de maior reconhecimento, o que garante a vitalidade das instituições. A Ditadura impõe aos cidadãos as pessoas de sua simpatia em detrimento das que têm mérito, corrompendo a Sociedade. Quando frustrados que se sentem vítimas assumem o poder a Democracia passa a correr sérios riscos de se tornar Ditadura, pseudo-democracia patrimonialista.

Mas há funções socialmente valorizadas que não podem ser simplesmente ocupadas. O comando do vassorão, apelido dado ao atual avião presidencial, não será dado a um sem terra, ou mesmo a um piloto filiado ao partido, mas que não tenha a expertise necessária à segurança da presidente. O parto da neta da mesma Presidente não será dado a uma doula, exceto de for montada uma UTI na sala anexa. O câncer da Presidente não será tratado se não pelos melhores médicos do país e no melhor hospital. São contradições da ideologia petista que está destruindo o tecido social ao promover ideias que a sociedade não pode aceitar. Cotas raciais baseiam-se em raça, portanto não são defensáveis. Não existem raças à luz da ciência e da democracia. A ditadura se impõe pela força; não pela argumentação. Impor médicos cubanos não é deselitizar a medicina; é aniquilar os pobres para impor uma ideia deturpada de sociedade justa. Impor juízes partidários não é democratizar a Justiça; é atentar contra o equilíbrio e isenção indispensáveis aos magistrados. Recorrer a servidores públicos partidários cuja missão é defender o Estado em aliança com esses juízes partidários para desrespeitar a lei a favor de suas teses sem ter que debater as propostas no foro legislativo é crime contra a Sociedade. Uma decisão judicial assim arrumada não pode ser uma forma legítima de burlar os mecanismos democráticos que a Sociedade consagrou. Se cargos de recrutamento amplo são uma excrecência intimamente ligada à corrupção, cargos legítimos ocupados ilegitimamente com finalidade ideológico-partidária são piores ainda. Se a corrupção nos estarrece e revolta, a corrosão dos valores republicanos é a pior calamidade que se pode imaginar.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

REDENÇÃO DA MEDICINA DE CONSULTÓRIO

O Presidente do Conselho Federal de Medicina fez uma proposta que será polêmica, isso se avaliada emocionalmente. Se a análise se aprofundar um pouco ver-se-á que é uma ideia magnífica para os médicos, para a medicina e para os pacientes.

O contexto da medicina moderna é marcadamente tecnológico. Novos exames e equipamentos mais modernos são incorporados todos os dias. A precisão tem tido custo elevado, mas pouco efeito na qualidade geral dos atendimentos. Por que o aparente paradoxo? Os pacientes passaram a crer que um bom atendimento envolve um bom exame complementar. A propósito, a medicina complementar, de apoio ao diagnóstico e tratamento passou a se auto intitular medicina diagnóstica, assumindo o protagonismo que caberia ao médico que solicitou o exame ou procedimento. Acontece que exames não fazem diagnóstico; quem faz isso é o médico, relegado a segundo plano.

O que temos é muito exame e pouco médico. Todos que se prezam dispõem de ao menos uma Ressonância Nuclear Magnética, muitas vezes pedida para abreviar a conversa no que não pode ser facilmente chamado consulta. É a sociedade de consumo de exames.

O faturamento das administradoras de planos de saúde já foi destinado majoritariamente para pagar os médicos, mas esse tempo passou e a incorporação tecnológica fez com que as fatias maiores fossem avidamente drenadas para os exames, arrochando o valor das consultas. Esse desequilíbrio não afeta apenas o médico, afeta as relações entre todos os envolvidos no setor de saúde.  Os consultórios clínicos, particularmente de Pediatria estão fechando e os profissionais migrando para o serviço público. A dificuldade em marcar consulta tem levado os usuários a procurarem os pronto-atendimentos, prejudicando os casos de efetiva urgência e sendo mal-atendidos, pois as emergências estão estruturadas para outro tipo de ato médico. De nada adianta a ANS estabelecer prazo de uma semana, um mês se não é esta a realidade.

A proposta do Presidente Roberto D'ávila é que as operadoras se desobriguem de pagar as consultas. Com isso elas ganham, reduzindo seus custos também porque a consulta paga tende a moderar o excesso de consultas demandadas apenas "para gastar o plano", como verbalizam certos pacientes consumidores de exames. Ganham os pacientes que terão redução em seus desembolsos contratuais mensais e a volta dos atendimentos de consultório cuidadosos e investigativos resgatando o protagonismo do médico em detrimento do Dr Google e da substituição de médicos por exames. Ganham os médicos, que terão oportunidade de sobreviver nos consultórios, ampliando as vagas para os conveniados e atendendo-os muito melhor. Para os demais atendimentos médicos permanecem as condições contratuais. Algo precisa ser feito pelos consultórios médicos, essa parece uma boa ideia. Mas a polêmica será grande e muitos preferirão o atendimento barato (30 a 40 reais), mesmo que feito de pé, no corredor ou 3 meses depois da marcação.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Habilitar ou reabilitar?

Inauguramos 2013 com as mesmas angústias de todos os anos. Não vemos saída porque não há boa vontade nem planejamento estratégico onde há poder para fazer mudar. A moda da hora é reabilitar a reabilitação. O ministro da Previdência anuncia reabilitação até de aposentados! A associação de biriba que representa os peritos que farão as reabilitações aposta no mesmo discurso para ficar simpática e bem na foto. 

Vale perguntar se o INSS/MPS fazem parte do Estado. Sim, porque, pensando o Estado como um todo, a habilitação seria uma prioridade maior que a reabilitação. É na educação, ou falta dela, que reside o maior gargalo ao nosso desenvolvimento como Nação. Falta força de trabalho qualificada, queixam-se o tempo todo os empresários. O Estado que pouco investe na qualificação de seus cidadãos se propõe a requalificar estes mesmos cidadãos, inclusive os aposentados?  Como re-ensinar quem não foi ensinado? O INSS formar trabalhadores é um desvio de sua função constitucional, já que existem outras entidades vocacionadas e criadas para isso. O MEC deve ser o órgão federal responsável pela formação de nossos jovens, ou estou delirando? Relembremos a missão do INSS: amparar através de benefícios pecuniários os trabalhadores impedidos de auferir a própria renda em razão de maternidade, reclusão, idade avançada ou doença incapacitante. O SUS cuida da saúde, o MTE da inspeção do trabalho e assim por diante. A definição clara de papéis e responsabilidades deveria ser a meta de qualquer governo, não a transferência de responsabilidade dos órgãos que menos funcionam para o que melhor funciona (é verdade, entre o citados o INSS é o melhor), comprometendo sua função original. Ênfase na reabilitação, desconsiderando a realidade e o desejo dos segurados, dos sindicatos, dos empregadores que querem é a aposentadoria por invalidez não passa de tró-ló-ló politiqueiro.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Psicopata

Psicopatas se tornaram um desafio para mim. Nunca consegui entendê-los e é isso que me provoca curiosidade. Convivemos com muitos psicopatas, de vários matizes e recomenda-se que se afaste deles como o diabo da cruz, única forma de "convívio". Confirmo o conselho, já que a ausência de emoções faz dele um ser não humano, que raciocina diferente e não tem códigos morais. Você fica sem parâmetros e à mercê, não importa o quanto estude o tema para se preparar. A definição psicodinâmica de Hare para psicopata inclui charme, loquacidade, grandiosidade, mentira patológica, afeto superficial, ausência de empatia e déficits do superego, como falta de remorço ou culpa e falha em aceitar responsabilidades por seus atos. Saiba que o distúrbio é basicamente de comportamento, o que torna o psicopata plenamente responsável e imputável.
As funções reguladoras e controladoras do ego são deficientes. O indivíduo persegue uma gratificação imediata com pouca preocupação com os desejos e sentimentos de outras pessoas, ou com transgressão de códigos, normas ou demandas da realidade externa.  Seu objetivo primário é evitar a tensão de não ser gratificado, evitar a ansiedade da frustração iminente. Os prazeres que experimenta são fugazes e estão mais relacionados a satisfações fisiológicas que a relacionamentos interpessoais. A bebida, o "sucesso", a aquisição de bens oferecem uma diminuição temporária de sua pressão interna por gratificação. A ansiedade antecipatória da frustração é insuportável, mas o psicopata cria mecanismos de dissimular, o principal é a negação. Assim aparenta não ser ansioso e disfarça sua necessidade de gratificação permanente. Enquanto a gratificação existir ele mantém o auto-controle, mas, na inevitabilidade da frustração tentará se antecipar com comportamento impulsivo. Seu relacionamento com a culpa é primitivo. O seu afeto é superficial, o que gera um vazio interior que busca preencher com estímulos externos que são sempre melhores que a tensão e o sentimento de isolamento do qual tentam escapar. Envolvem-se com prostitutas, renovam casamentos, adquirem bens. Seus envolvimentos emocionais são narcisisticamente centrados neles mesmos. As outras pessoas são personagens temporários nas suas vidas, com pouco sentimento de perda.  O estímulo primário é insinuante, extrativista e explorador. A pessoa anti-social teme a passividade em seus relacionamentos interpessoais. Muito de seu comportamento agressivo é para evitar o sentimento de submissão. Muitos comportamentos criminosos são decorrentes de ameaças diretas ou simbólicas que os fazem sentirem-se passivos. Prisioneiros anti-sociais se incomodam mais com a passividade diante de regras prisionais do que com o isolamento social imposto. Em razão de estar interessado apenas no que pode obter dos outros, o psicopata não se relaciona com pessoas pobres, fracas ou desprovidas de poder. O psicopata usa mecanismos de defesa como tratar seus próprios vícios como virtude. Assim se gaba de suas numerosas experiências sexuais de curta duração,
Saiba identificá-lo e afaste-se.

J. L. Pio Abreu
Médico Psiquiatra dos H.U.C.
Professor da Faculdade de Medicina da
Universidade de Coimbra

A carreira histriónica não está vedada aos homens, mas aqueles que nela se inscrevem têm de se tornar um pouco efeminados. Por outro lado, o metabolismo masculino não responde tão bem à hiperventilação, pelo que os homens preferem o alcool para trabalharem a sua memória e as mudanças de identidade. Porém, neste caso, arriscam-se a serem tomados como alcoólicos toutcourt.
Mas existe uma versão machista da carreira histriónica: tratase da psicopatia. Os psiquiatras agora chamam-lhe personalidade anti-social, mas este nome é um tanto aborrecido e pouco mediático. Psicopata é o nome que vem nos filmes e que lhe dá direito a tornar-se uma celebridade. (A propósito, é bom ter uma televisão no quarto para ir vendo os filmes que passam depois da meia noite). Aconselho-o a identificar-se com os heróis dos filmes de acção e a pensar que ser psicopata não é mau de todo. 

Para ser psicopata também tem de procurar experiências fora dos limites, baralhar a identidade e tramar a memória. No entanto costumam-se usar métodos mais radicais. Porque não ter vários nomes, incluindo um bilhete de identidade diferente para cada um? Porque não habituar-se aos disfarces, usando para isso cabelo e barba? Tem ao seu dispôr todos os recursos do histriónico, mas você vai precisar de muitos mais porque as suas aventuras têm de ir mais longe. O certo é que as raparigas conseguem ser melhores no teatro e manipular os outros com o desejo que provocam. Um rapaz não é tão bom nessa arte (embora o possa tentar) e às vezes tem de se impôr pela provocação do medo. Tem de se habituar a esse atributo das hormonas masculinas que é a violência. Como é que se vai habituar a isso? Bem, tem de começar muito cedo, aproveitando a idade em que todos os miudos, sob a irrupção das hormonas, começam a transgredir e a fazer asneiras. Em geral, eles acabam por parar com isso, quer porque os pais os travam, quer porque apanham alguns sustos, quer porque se apaixonam.

Mas você, que optou por esta carreira, não vai ser travado por qualquer destes expedientes e vai continuar toda a vida a transgredir. Para isso, vai ter de sentir que o crime compensa. E o melhor é habituar-se cedo, na altura em que os seus amigos admiram os que conseguem pôr os adultos em polvorosa, e que as autoridades ainda são indulgentes. Se aguentar isso até aos 20 anos, tem a carreira garantida. Para começar, tem de frequentar vários ambientes, quanto mais melhor. Como todos fazem, pede dinheiro emprestado num círculo de amigos, mas, ao contrário dos outros, que se mantêm com os mesmos amigos, salta logo para outro círculo, a fim de nunca pagar. Do mesmo modo, se se esquecerem de alguma coisa em sua casa, esqueça-se também de quem é o proprietário. Prosseguindo deste modo, é natural que alguém lhe peça contas.  Aldrabe à vontade mas, se isso não chegar, organize uma briga que lhe permita cortar com os antigos amigos e impôr o respeito dos novos. Habitue-se entretanto a fugir de casa, mas não volte no mesmo dia. Volte apenas quando os seus pais já estiverem desesperados e, de filho caçula, o promoverão a filho pródigo. Tal como o histriónico, jogue com as emoções dos outros, mas leve-as ao extremo. À sedução, acrescente a atemorização.

O tema da histeria e dos fenómenos a ela associados suscitam a curiosidade pública e são por isso abundantes por todo o mundo. Para além dos estudos originais de Freud, que lançaram a psicanálise, o leitor pode encontrar na lista que se segue algumas descrições exaustivas. Acresce um interessante filme de Daniel Petrie intitulado Sybil (Lorimar Productions), retirado de um livro de Rheta Schreiber que descreve uma personalidade múltipla. Temos no entanto poucas descrições em língua portuguesa, em franco contraste com a difusão destes fenómenos por aqui. Falta porém um aviso: o facto destes fenómenos serem descritos, não quer dizer que eles sejam explicados ou entendidos. Muitas das sugestões indicadas no texto (nomeadamente quanto ao papel da hiperventilação) são da minha responsabilidade e surgem de investigação em curso. Sobre o tema da Psicopatia (ou Personalidade Anti-Social) não forneço muitas descrições, mas o leitor pode ter acesso a elas através da maioria dos filmes que as televisões difundem.

Viage, viage muito, frequente as noites, e ruas e locais clandestinos, que não faltarão pessoas a proporem-lhe novas aventuras. Entretanto, não tem qualquer hipótese de cumprir algum  compromisso, mas é exactamente isso que se espera. O importante é não estar muito tempo num só lugar nem com uma só pessoa, porque assim poderia criar algum vínculo de amizade ou amor, o que o levaria a ficar condoído do sofrimento dos outros. Utilize-se apenas dos outros para que satisfaçam os seus desejos, e largue-os a seguir. Se existir uma sombra de culpa, fica bloqueado na sua carreira. Por isso, sempre que veja alguém a sofrer pense que ele é de outra espécie (aprenda a cultivar o racismo) e meta-se noutra ainda pior. Mesmo que alguém tenha de morrer, só a primeira vez é complicado, das outras habituase.

Actue 10 vezes antes de pensar, dê largas aos seus impulsos e satisfaça sempre os seus desejos. Pode hiperventilar, pode beber, mas sobretudo embebede-se com novas aventuras, cada vez maiores, que nunca o deixem pensar, a não ser para preparar a próxima. Os especialistas até têm um nome para isso: acting-out. 

Pode passar, primeiro por casas de correcção, depois por prisões. São novas mudanças de ambiente, onde aprenderá muita coisa interessante para a sua carreira, e novas oportunidades de grandes aventuras. Podem-lhe chamar mau, criminoso, ou mesmo psicopata. Mas, que fazer? O melhor é mesmo adaptar-se a isso e ver-se como os outros o vêem. Às vezes também pode sofrer com castigos ou lesões físicas. Tem de se habituar a isso, sempre pensando na que irá fazer a seguir, enquanto outros (talvez médicos) cuidam do seu corpo. Tomar a dor por conta do prazer que se segue, só multiplica o prazer. Mas tem de ser perfeitamente claro que não se importa de morrer. Vai ver o poder que isso lhe dá. Aliás, se morrer, também não se dá conta. O certo é que nunca pensou em si como pessoa, nem sabe bem se existe ou não. Quem nunca estabeleceu vínculos com outros, quem não conhece os outros como pessoas, também não se reconhece como projecto futuro. Apenas o gozo imediato, e depois logo se vê. Voltou ao estado primitivo, e pode sempre argumentar que a vida é uma selva. Talvez sobreviva. Se sobreviver, ainda tem alternativas à sua disposição. 

Meta-se nas drogas, quanto mais melhor, dirija-se a um Centro de Atendimento de Toxicodependentes, leia um pouco da secção dos maníacodepressivos, envolva-se sexualmente com mulheres e homens, infrinja castigos corporais, e tem forte probabilidade de lhe concederem a distinção de personalidade borderline, com direito a ser referido nos congressos científicos. Vá para a guerra como mercenário, trabalhe por conta de gangs, e será muito bem pago.

Arranje dinheiro, vá para um país onde existam fortes garantias das liberdades individuais, estude a lei e pague a um bom advogado, e terá uma velhice garantida. Meta-se em negócios, na grande especulação financeira, e a própria lei sancionará a sua carreira. Se optar por isso, tem, pelo menos, a vantagem de nunca encarar, olhos nos olhos, as suas vítimas. Se, a conselho dos advogados, se envolver paralelamente em acções beneméritas, até pode vir a merecer uma estátua.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

EDITORIAL SOBRE A PERÍCIA DO INSS

A Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, periódico editado pela laboriosa FUNDACENTRO, trás em seu volume 37, número 125 de Jun/Jul 2012, editorial assinado pelos eminentes pesquisadores Maria Maeno e José Tarcísio Buschinelli sobre a proposta de concessão de benefícios por incapacidade sem perícia inicial do INSS. Atentos a tudo que se pode saber (pois há muito que não se sabe, talvez porque sequer exista) sobre a atividade médico-pericial em debate, este blog faz algumas respeitosas considerações sobre o texto. 

A primeira, digamos, imprecisão, foi, já no primeiro parágrafo, compartimentalizar a avaliação do pretendente a auxílio-doença em administrativa (qualidade de segurado) e técnica (realizada por perito médico). Na verdade, ilustres pesquisadores, a avaliação médico pericial é que determina haver ou não qualidade de segurado nas datas do adoencimento e incapacitação. Esta é caracterizada por julgamento multifatorial do perito, portanto transcende a técnica. 

Ainda no primeiro parágrafo é afirmado que "as perícias subsequentes eram agendadas até a cessação do benefício". Esta afirmação não corresponde à verdade, uma vez que também sempre foi da prática pericial estimar o período de recuperação através da conclusão dita tipo 2, ou DCB, que significa Data da Cessação do Benefício, estabelecida na perícia concessora, a critério do julgamento pericial. A conclusão tipo 4, ou DCI - Data da Comprovação da Incapacidade - era (e é) apenas uma das conclusões possíveis. 

No parágrafo terceiro, os autores abordam "sistema de cessação de benefícios por incapacidade, tendo por base a estimativa de tempo de recuperação funcional atrelada exclusivamente ao código da doença...". A preocupação dos editorialistas não procede, uma vez que a sociedade reivindica clareza e critério nas deliberações periciais e uma estimativa para cada patologia ou agravo é desejável. Evidentemente isso não significa um "sistema de cessação" nem jamais poderá ser uma imposição automática que violente a autonomia do perito que, repito, JULGA a incapacidade a partir da doença principal levando em conta todos os intervenientes, inclusive sociais. Se estamos falando da perícia médica previdenciária composta por servidores federais concursados, este temor não tem fundamento. 

 Em seguida, os autores abordam a "concessão mediante atestado apresentado pelo segurado". A crítica que fazem refere-se à impossibilidade, na proposta, que o atestado caracterize a doença como ocupacional. Não há qualquer referência à autenticidade dos afastamentos nem à necessidade de controles a este respeito não apenas por má-fé, mas por desentendimentos conceituais de quem tem o compromisso exclusivo com o paciente, diferentemente do perito. Ignoram, dando a entender desconhecimento da atividade ou credulidade ideológica na pureza e boa fé dos trabalhadores bem como na capacidade de médicos serem assistentes e peritos ao mesmo tempo. No mínimo ingenuidade. 

Preocupam-se com reabilitação e com a integração do INSS com o SUS. Efetivamente são braços distintos da Seguridade que se entrelaçam na medida em que as deficiências do SUS impactam na duração dos afastamentos. A principal razão de prorrogação de benefícios além dos prazos estimados é a baixa resolutividade do SUS, com alto custo previdenciário e social, questão que os editorialistas não abordam tampouco. Não seria o SUS o órgão adequado a fazer perícias por razões vocacionais, isenção inadequada devido à relação médico-paciente assistencial e, sobretudo, pela contaminação da ineficiência do órgão assistencial sobre o previdenciário, entretanto isso é sugerido pelos editorialistas a título de "desburocratização". 

O parágrafo final, entretanto, é o que mais demonstra a distância entre os bacharéis e os trabalhadores peritos, ao afirmar "Uma verdadeira mudança no modelo pericial exigiria a discussão do conceito de incapacidade, que atualmente é baseada exclusivamente no diagnóstico e apenas em um código de doença..." Nada mais equivocado! A perícia previdenciária jamais permitiu a imposição de CID sobre o JULGAMENTO da incapacidade e sempre defendeu a individualização de cada caso, ponderando sobre o diagnóstico todo e qualquer interveniente como idade, qualificação, acessibilidade, comorbidades etc. Os autores entendem os peritos como robôs, copiadores de atestados, o que não só não corresponde à realidade como faz alguns, como eu, se sentirem ofendidos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

PERÍCIA MÉDICA DA UNIÃO FAZ 3 ANOS

A Perícia Médica da União como órgão oficial federal autônomo cada vez mais se impõe como uma necessidade da democracia e do bom serviço público, eficiente e de menores custos. Torna-se inevitável que a Perícia Médica do INSS evolua para modelo mais abrangente que englobe todos os órgãos federais que demandem perícias, entre elas a Justiça Federal.  De fato, a Perícia Médica Previdenciária, já atualmente, presta serviços não só ao INSS, mas também ao Ministério da Previdência (LOAS), ao Ministério do Planejamento e Gestão (SIASS), à Secretaria da Receita Federal (Isenção de IRPF por doenças graves), Assistência à Advocacia Geral da União. Somos, DE FATO, a Perícia médica da União; precisamos sê-lo de Direito! 

E porque isso precisa ser feito? Para dar legitimidade, estrutura, carreira, remuneração, independência técnica e financeira, autonomia administrativa. Peritos têm que ser autônomos como a lei já garante aos peritos criminais. Peritos precisam isenção e independência normativa, não podem ficar subordinados aos órgãos que demandam as perícias, não podem receber gratificações.

Em fins de 2007 surgiu a proposta entre peritos previdenciários. Como qualquer inovação, foi ridicularizada e terminantemente rechaçada pela entidade representativa da classe. Em 31/08/2009, há exatos 3 anos, o grupo que compõe esse movimento perito.med promoveu importante debate em Porto Alegre para o qual foi convidado o então Presidente da International Academy of Legal Medicine, Professor Duarte Nuno Vieira, em razão de sua defesa do modelo que ajudou a implantar em Portugal e que inspirou a Suécia e a Autrália, entre outros. Nascia o debate formal sobre organização centralizada de perícias médicas de avaliação de danos no Brasil [link].

Em  15/02/2010 publiquei artigo o jornal O Estado de Minas [link][link] repercutindo ideias de evento ocorrido em Belo Horizonte que se agregavam ao debate já iniciado. Posteriormente, o grupo denominado Perícia Forte que, à época, disputaria eleições na associação da classe, incluiu o tema Perícia Médica da União na sua pauta programática [link].

Apoiamos todos os debates que se fizerem acontecer sobre o tema e convidamos a sociedade civil a participar para que o tema amadureça e se torne realidade, se possível, antes de aniversariar mais 3 anos.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

VOCÊ VAI SER MÉDICO

O futuro médico nasceu. Quer tomar leitinho, nenê? Pode tomar, mas só um pouco. Não se acostume com muito. Você vai ser médico. 

Está aprendendo a andar. Ande com cuidado. Olhe bem onde pisa para não cometer erros. Você vai ser médico. 

Primeiro ano na escola. Prepare-se para ser vigiado, cobrado, avaliado e provavelmente repreendido se não corresponder às expectativas. Você vai ser médico. 

Já está crescidinho. Trate bem os pais, os professores, os coleguinhas, os animais. Aprenda a ter respeito por todos. E não espere recompensas por isso. Não está fazendo nada além de sua obrigação. Você vai ser médico. 

Adolescência. Tempos difíceis. Estude muito e se divirta pouco. Gaste sua juventude nas bibliotecas e cursinhos. O vestibular se aproxima. No final, talvez valha a pena. E nem pense em escolher outro curso. Nada de engenharia ou direito. Já decidimos. Você vai ser médico. 

Sucesso. Cabelo raspado, nome estampado nas páginas do jornal, internet, corredores. Agora é oficial. Você vai ser médico. Faculdade de medicina. Agora ninguém te segura. E quando eu digo ninguém, em se tratando de Brasil, quero dizer ninguém mesmo. Nem a polícia. Você só não vai receber seu diploma se fizer algo mais que esfaquear uma colega, sequestrar um ônibus, roubar a comissão de formatura ou se filiar a um grupo de degoladores. No Brasil é assim. Entrou, só sai morto ou médico. Preso, nunca (o que é um absurdo, mas na prática é mais ou menos isso que estamos vivendo). Mas não pense que essa regalia te dá o direito de relaxar e esquecer os seus compromissos. É o momento de estudar e se dedicar. Corpo e alma voltados para o cumprimento do dever hipocrático. Absorva todo o conhecimento, pois você precisará dele. Você vai ser médico. 

Formatura. Juramentos. Agora a história é outra. Agora o carimbo é seu. Agora é a sua cara na frente do tapa. E é melhor dar a outra face. É o mínimo que esperam de você. Cobranças. Atenda bem, atenda rápido, atenda todos, atenda no hospital, no posto de saúde, no corredor, na lanchonete, na rua, no telefone, de manhã, de tarde, à noite, de madrugada, nos intervalos, nos feriados e finais de semana, no natal, durante as férias. E não reclame. Agora você é médico. 

Seja paciente, seja cortês, seja humilde e, acima de tudo, seja cauteloso. Cometeu um erro? Erro médico! O paciente não melhorou? Erro médico! Não escreveu direito? Erro médico! Chegou atrasado? Erro médico! Não tem vaga no CTI? Erro médico! Os anjos levaram pelas mãos aquela senhora de 98 anos que sofria de 115 doenças diferentes? Erro médico! Você nem imaginava que iria errar tanto, não é mesmo? Se existem médicos envolvidos, provavelmente pensarão que o erro partiu deles. Não se envolva em acidentes de trânsito. Mesmo se baterem na sua traseira, por praticar medicina você já estará errado. 

De acordo com a nova reforma ortográfica, “erro” se tornou termo composto, sempre acompanhado pelo “médico”, separados ou não por um hífen. Não existe médico que não esteja errado, nem erro que não tenha relação com um médico. Não demora muito e a qualidade de médico irá se tornar agravante ou qualificador de todos os crimes. “Soltar balão = 3 meses de detenção, salvo quando praticado por médico, quando a pena deverá ser triplicada”. Muita cobrança e muitos erros. Lembra quando você estava na faculdade e nem a polícia te parava? Acabou. Agora você está sendo vigiado. Errou? Cadeia! Mesmo que por pouco tempo. Não pegou cadeia? Então vai perder a carteira de médico! Escapou dessa também? Então passa a grana! 

Todo mundo quer processar um cara rico, e rezam as lendas que o médico é um indivíduo abastado, que passa as noites contando moedas de ouro em sua cobertura quadruplex. Mas será isso a verdade? Os médicos estão nadando em dinheiro? E esse dinheiro todo saiu de onde? Herança? Loteria federal? Votação secreta na câmara, de madrugada, para triplicar seus próprios salários? Será que estão recebendo propina e escondendo nas cuecas e meias? Parece que não. Pesquisadores acreditam que a maioria dos médicos recebe dinheiro em troca do seu trabalho. E o trabalho deles é valorizado? Claro! O governo paga verdadeiras fortunas para os médicos (na Inglaterra). No Brasil, exige-se muito e paga-se pouco. E o médico que não se atreva a entrar de greve. Se o fizer, sua foto sairá em todos os jornais ao lado de uma nota que provavelmente o tratará como mercenário, desumano, sem ética, ou coisa pior. 

O salário até poderia ser maior, mas nesse caso algum político não teria o que colocar nas meias durante as noites frias de inverno. E além do mais, as leis de responsabilidade fiscal não permitem aumentos para o funcionalismo público em ano par, ano eleitoral, ano de copa do mundo, meses quentes, meses mornos, meses frios, dias nublados ou no carnaval. Por sorte, o médico ainda pode contar com seu consultório particular, apesar de paciente particular ser artigo raro e disputado hoje em dia, desses que se você consegue pegar tem que mandar empalhar e exibir na parede da sala. Hoje, quem tem dinheiro paga plano de saúde. E paga caro. E fica achando que a maior parte daquele dinheiro vai para o médico, que deve estar acendendo cigarro com nota de cem reais. Na verdade, o paciente atendido hoje através do plano de saúde ainda passará pelo faturamento, serão abatidos os descontos e impostos devidos e, depois de dois ou três meses, o pagamento vai bater na conta do médico, que precisará completar o valor para poder cortar o cabelo (o pior é saber que nem estou exagerando). A remuneração realmente é baixa. 

Claro, não tem nenhum médico passando fome por aí (ainda), mas é absurdo que se pague mais pela filmagem do parto do seu filho do que pelo serviço do médico de trazer o pequeno artista ao mundo. E se você parar de atender este ou aquele plano que paga menos pela consulta, os pacientes guardarão mágoa eterna, pois acharão que você ficou rico e se esqueceu deles. A culpa é sempre sua. Sobra sempre para o médico, esse ser injustiçado, condenado a vagar por um mundo de deveres, privado de qualquer direito, exceto o de permanecer trabalhando calado. Errado por natureza, desvalorizado economicamente, cobrado por todos e ainda estampado no jornal como mercenário... Agora você é médico (indignado, mas ainda médico). 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Artigo recomendado

Aspectos éticos e jurídicos da declaração de óbito

Júlio César Namem Lopes

Resumo


O artigo apresenta um estudo da declaração de óbito na ótica tipicamente jurídica, tecendo considerações sobre os textos legais e regulamentares que, direta e indiretamente, lhe
são afeitas. Objetiva colaborar para a melhor compreensão da relevância jurídica deste documento, procurando localizá-lo no contexto maior no qual se insere. O registro de óbito
conserva natureza instrumental e, para sua lavratura, faz-se necessária a apresentação de declaração de óbito, anteriormente tratada por disposições administrativas, hoje objeto da Lei 11.976/09. Objetiva, ainda, valorizar esse documento no interesse das diversas áreas e setores do
Ministério da Saúde que dele se utilizam, apontando sua correlação com os dispositivos do novo Código de Ética Médica e outras resoluções do Conselho Federal de Medicina.

 Texto completo em PDF link

sexta-feira, 3 de junho de 2011

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Simulação, por que negá-la?

Davi, fugindo às iras de Saul, refugiou-se na corte do rei Áquis e, como ali fosse malvisto, recorreu ao ardil de simular loucura, o que lhe valeu a piedade dos inimigos. É a simulação psiquiátrica presente na Bíblia.

1Samuel 21:10-15

Davi é protegido por Áquis

10 Levantou-se, pois, Davi e fugiu naquele dia de diante de Saul, e foi ter com Áquis, rei de Gate.
Mas os servos de Áquis lhe perguntaram: Este não é Davi, o rei da terra? não foi deste que cantavam nas danças, dizendo:
Saul matou os seus milhares,
e Davi os seus dez milhares?

12 E Davi considerou estas palavras no seu coração, e teve muito medo de Áquis, rei de Gate.
Pelo que se contrafez diante dos olhos deles, e fingiu-se doido nas mãos deles, garatujando (arranhando, rabiscando) nas portas, e deixando correr a saliva pela barba.
14 Então disse Áquis aos seus servos: Bem vedes que este homem está louco por que mo trouxestes a mim?
Faltam-me a mim doidos, para que trouxésseis a este para fazer doidices diante de mim? há de entrar este na minha casa?

Agradecimento: Dra Vânia Borba